João Pedro Caleiro, de EXAME.com

São Paulo – A grande história econômica das últimas duas décadas é a ascensão da economia chinesa, que já está próxima de se tornar a
maior do mundo em paridade de poder de compra.
Um processo que afetava o Brasil principalmente pela alta das commodities se tornou a uma questão de investimento direto – e também de lições a serem aprendidas.

O crescimento da China de 7,7% em 2013 foi o menor em 10 anos e deve ficar mais baixo daqui pra frente, mas nem tanto: entre 6,5% e 7%, ainda uma das maiores taxas do mundo.

O PIB per capita chinês é só 13% do americano, então para cada risco – como oaumento da dívida e o sistema financeiro paralelo – há uma oportunidade pronta para ser usada – como reformas de flexibilização e um pool de talentos de 7 milhões de novos jovens graduados por ano.

Na China, a taxa de investimento em relação ao PIB foi de 35% em 2000 para 48% em 2013. No Brasil, ela é historicamente baixa e flutuou em torno de 18% na última década (com queda para 16,5% no último trimestre), longe de outros países desenvolvidos ou emergentes.

A força do investimento chinês é tão forte que já está gerando vulnerabilidades. Em debate realizado hoje em São Paulo pelo MIT Sloan Management School sobre a relação entre China e América Latina, Chong En-bai, professor da universidade Tsinghua, destacou alguns riscos sendo incubados.

Um é que o retorno seja cada vez menor em relação ao custo do empréstimo, e que os emprestadores fiquem menos sensíveis a isso.

Outro é que o motor da construção civil acabe ofuscando o resto da economia: “o Alibaba será provavelmente o maior IPO da história do
mundo, mas a parcela da IT na economia chinesa está na verdade caindo, assim como os salários relativos deste setor em relação ao de
construção – que já emprega 50 milhões de pessoas e é quase 7% da economia.”

Para reduzir essa vulnerabilidade, a ideia é que o consumo das famílias ganhe importância – como acontece no Brasil, onde esse item
cresceu pela 43a vez seguida no último trimestre.

Atualmente, a China registra seus cidadãos como rurais ou urbanos, e quem se muda sem permissão do governo fica sem acesso a educação e saúde. Na medida em que esse sistema fica mais livre, os chineses podem confiar mais na proteção social e tem menos incentivo para guardar uma grande poupança, o que libera esse dinheiro para o consumo.

O governo chinês já está fazendo este processo, além de outras reformas, mas o ritmo é lento e bate em interesses estabelecidos.

Pelo menos no curto e médio prazo, o excesso de capital vai continuar e precisa ir para algum lugar, e é aí que surgem oportunidade para os países emergentes e latino-americanos como o Brasil.

“A China vai continuar dependendo de investimento, e com sua alta taxa de poupança, o doméstico não será suficiente e terá que andar
de mãos dadas com o internacional. Essa é uma oportunidade para aprofundar os laços com a América Latina”, diz Jian Gao, conselheiro
sênior do Banco de Desenvolvimento da China.

 

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Jian Gao, conselheiro sênior do Banco de Desenvolvimento Chinês, Chongen-Bai, professor da universidade de Tsinghua, Pei Sun, professor da universidade de Fudan, e Xinzhong Xu, professor da universidade de Lingnan

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